Chegar aos 90 anos sem demência é um marco de longevidade. Mas isso significa que o risco de desenvolver demência desaparece?
A resposta é não.
Um estudo recente publicado no The Lancet Healthy Longevity acompanhou pessoas com 90 anos ou mais e trouxe novas informações sobre a ocorrência de demência nessa faixa etária, incluindo diferenças relacionadas a sexo, características populacionais e genética.
O que é demência?
Demência não é uma consequência inevitável do envelhecimento.
O termo descreve uma síndrome caracterizada por alterações cognitivas suficientemente importantes para interferir na autonomia e nas atividades do cotidiano.
Podem ocorrer alterações em:
- memória;
- atenção;
- linguagem;
- raciocínio;
- orientação;
- planejamento;
- comportamento.
A doença de Alzheimer é a causa mais comum, mas existem diferentes tipos de demência.
Entre eles estão:
- doença de Alzheimer;
- demência vascular;
- demência com corpos de Lewy;
- demência associada à doença de Parkinson;
- demência frontotemporal;
- formas mistas.
O Ministério da Saúde ressalta que algumas condições que podem produzir sintomas semelhantes à demência são potencialmente tratáveis quando identificadas precocemente.
Para aprofundar o tema, veja também nosso conteúdo sobre [doença de Alzheimer].
O risco de demência continua depois dos 90 anos?
Sim.
O estudo LifeAfter90 acompanhou mais de 800 participantes com 90 anos ou mais, com idade mediana de aproximadamente 92 anos, realizando avaliações cognitivas periódicas.
A pesquisa mostrou que a demência continua ocorrendo nessa faixa etária e que fatores associados ao risco em idades mais jovens também podem continuar relevantes depois dos 90 anos.
Isso ajuda a desfazer uma ideia equivocada: chegar aos 90 anos não significa estar automaticamente protegido contra demência.
Da mesma forma, também não significa que uma pessoa de 90 ou 95 anos necessariamente desenvolverá a doença.
O envelhecimento cerebral é extremamente heterogêneo.
O que o estudo encontrou sobre homens e mulheres?
Um dos achados foi uma incidência aproximadamente duas vezes maior de demência entre as mulheres em comparação aos homens no grupo estudado.
Esse resultado precisa ser interpretado com cautela.
Ele não significa que ser mulher determine o desenvolvimento de demência.
Diferenças na expectativa de vida, sobrevivência, fatores biológicos, sociais e históricos podem influenciar os resultados observados em estudos populacionais.
Portanto, o dado é importante para pesquisa e planejamento de saúde, mas não deve ser utilizado para prever o futuro de uma pessoa individualmente.
E a genética? O que significa o gene APOE?
O gene APOE está relacionado ao metabolismo de lipídios e também é um dos fatores genéticos associados ao risco de doença de Alzheimer.
Existem diferentes variantes do gene.
De maneira simplificada:
- APOE ε2 pode estar associado a menor risco;
- APOE ε3 é considerado a variante mais comum;
- APOE ε4 está associado a maior risco de Alzheimer em determinadas populações.
No estudo LifeAfter90, a variante APOE ε2 esteve associada a um efeito protetor importante, enquanto os resultados relacionados ao APOE ε4 variaram de acordo com sexo e grupo populacional.
Isso não significa que um teste genético determine se alguém terá ou não demência.
Genética é apenas uma parte da equação.
Ter APOE ε4 significa que a pessoa terá Alzheimer?
Não.
Essa é uma distinção fundamental.
Ter uma variante genética associada a maior risco não significa ter uma doença nem garante que ela aparecerá no futuro.
O desenvolvimento de demência envolve uma combinação complexa de fatores:
- idade;
- genética;
- saúde cardiovascular;
- atividade física;
- escolaridade;
- audição e visão;
- sono;
- diabetes;
- hipertensão;
- isolamento social;
- histórico de traumatismo craniano;
- outros fatores ambientais e de saúde.
O próprio estudo LifeAfter90 mostra que pessoas com determinados fatores de risco podem chegar a idades muito avançadas sem desenvolver demência.
Quais sinais de alerta devem ser observados depois dos 90?
A idade avançada não deve fazer com que alterações cognitivas sejam automaticamente consideradas “normais”.
Alguns sinais merecem investigação:
- repetir perguntas constantemente;
- esquecer acontecimentos recentes importantes;
- perder-se em locais conhecidos;
- apresentar dificuldade para administrar dinheiro;
- esquecer medicamentos;
- ter dificuldade para cozinhar ou organizar tarefas habituais;
- apresentar mudanças marcantes de comportamento;
- ter dificuldade crescente para compreender conversas;
- perder autonomia em atividades que antes realizava sozinho.
O mais importante é observar mudança em relação ao funcionamento anterior.
Como é feita a investigação?
Não existe um único exame que, sozinho, diagnostique demência.
A avaliação começa com uma história clínica detalhada, geralmente incluindo informações fornecidas pelo próprio paciente e, quando possível, por alguém próximo.
O médico pode avaliar:
- memória;
- atenção;
- linguagem;
- orientação;
- raciocínio;
- humor;
- comportamento;
- funcionalidade.
Também podem ser necessários exames laboratoriais, avaliação neurológica, exames de imagem e outros testes, dependendo do caso.
As diretrizes do Ministério da Saúde ressaltam a importância de confirmar o declínio cognitivo, avaliar a funcionalidade e investigar causas potencialmente reversíveis ou tratáveis.
É possível reduzir o risco de demência mesmo depois dos 90?
Não existe garantia de prevenção.
Porém, medidas de saúde continuam importantes ao longo do envelhecimento.
Entre elas:
Controle da pressão arterial
A hipertensão está associada a maior risco de alterações cerebrovasculares e demência.
Atividade física
Manter-se fisicamente ativo contribui para saúde cardiovascular, mobilidade e bem-estar.
Controle do diabetes
Alterações metabólicas crônicas podem afetar a saúde vascular e cerebral.
Saúde auditiva e visual
Perdas sensoriais podem aumentar isolamento e dificuldade de comunicação e estão associadas ao risco de declínio cognitivo.
Vida social
Manter vínculos sociais e atividades significativas pode contribuir para saúde emocional e cognitiva.
Estímulo cognitivo
Leitura, aprendizado, atividades cognitivamente desafiadoras e participação social podem fazer parte de uma rotina saudável.
Perguntas frequentes sobre demência depois dos 90 anos
- Depois dos 90 anos ainda existe risco de Alzheimer?
Sim. O risco de demência continua existindo após os 90 anos, embora varie significativamente entre indivíduos.
- Esquecimento aos 90 anos é normal?
Algumas mudanças cognitivas podem acompanhar o envelhecimento, mas perdas importantes de memória ou autonomia não devem ser automaticamente consideradas normais.
- Toda pessoa que chega aos 90 anos terá demência?
Não. Existem muitas pessoas que chegam a idades avançadas mantendo boa capacidade cognitiva e funcional.
- O gene APOE determina quem terá Alzheimer?
Não. O APOE influencia risco, mas não determina sozinho o desenvolvimento da doença.
- Mulheres têm maior risco de demência depois dos 90?
O estudo LifeAfter90 encontrou uma incidência aproximadamente duas vezes maior entre mulheres no grupo analisado, mas esse resultado deve ser interpretado no contexto da pesquisa e não como uma previsão individual.
- Quando uma pessoa muito idosa deve fazer avaliação cognitiva?
Quando familiares ou o próprio paciente percebem mudanças persistentes de memória, comportamento, raciocínio ou capacidade de realizar atividades habituais.
Conclusão
A longevidade extrema não elimina o risco de demência, mas também não torna a doença inevitável.
Os dados do estudo LifeAfter90 mostram que o cérebro continua envelhecendo de maneiras diferentes entre as pessoas mesmo depois dos 90 anos. Fatores genéticos, biológicos, sociais e de saúde ajudam a explicar parte dessa diversidade.
Por isso, idade avançada não deve ser motivo para ignorar mudanças cognitivas.
Identificar alterações, investigar causas e organizar o cuidado de forma individualizada continua sendo importante em qualquer fase do envelhecimento.
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