As estatinas estão entre os medicamentos mais utilizados para reduzir o colesterol e prevenir doenças cardiovasculares. Mas uma pergunta permanece especialmente importante na geriatria: começar uma estatina depois dos 70 anos realmente traz benefícios?
Um novo estudo publicado no New England Journal of Medicine trouxe dados importantes sobre essa questão. Os resultados mostram redução de eventos cardiovasculares, mas não demonstraram aumento da sobrevida livre de demência ou incapacidade.
O que são estatinas?
Estatinas são medicamentos que reduzem principalmente o colesterol LDL, conhecido popularmente como “colesterol ruim”.
Elas podem ser utilizadas para prevenção cardiovascular, dependendo do risco individual de cada pessoa.
Seu objetivo pode incluir a redução da probabilidade de eventos como:
- infarto do miocárdio;
- acidente vascular cerebral (AVC);
- necessidade de procedimentos de revascularização;
- outros eventos cardiovasculares.
Para entender por que essa discussão é importante no envelhecimento, é preciso lembrar que idade não é o único fator que determina o risco cardiovascular.
Histórico familiar, pressão arterial, tabagismo, diabetes, colesterol, doenças cardiovasculares anteriores, função renal, fragilidade e expectativa de vida também entram nessa avaliação.
O que o novo estudo mostrou?
O estudo STAREE, publicado em 2026 no New England Journal of Medicine, avaliou 9.971 adultos com 70 anos ou mais, residentes na comunidade e sem histórico de doença cardiovascular, diabetes ou demência.
Os participantes receberam atorvastatina 40 mg por dia ou placebo e foram acompanhados por uma mediana de 5,9 anos.
O resultado mais importante foi uma redução significativa dos principais eventos cardiovasculares.
Ocorreram:
- 297 eventos cardiovasculares no grupo da atorvastatina;
- 412 eventos no grupo placebo.
Isso correspondeu a um hazard ratio de 0,70, indicando aproximadamente 30% menos risco relativo do desfecho cardiovascular estudado.
Mas houve uma segunda descoberta importante.
Quando os pesquisadores avaliaram o desfecho composto por morte, demência ou incapacidade física persistente, não encontraram diferença estatisticamente significativa entre os grupos.
O hazard ratio foi de 0,94, com intervalo de confiança de 0,84 a 1,05.
Em outras palavras: o estudo mostrou benefício cardiovascular, mas não mostrou que a atorvastatina prolongou a vida sem demência ou incapacidade física.
Isso significa que toda pessoa acima de 70 anos deve tomar estatina?
Não.
Essa é uma das principais conclusões que precisam ser evitadas ao interpretar o estudo.
A pesquisa avaliou um grupo específico de pessoas: adultos com 70 anos ou mais que viviam na comunidade e não tinham doença cardiovascular, diabetes ou demência.
Isso não significa que os resultados possam ser automaticamente aplicados a:
- idosos muito frágeis;
- pessoas com múltiplas doenças;
- pacientes com doença cardiovascular já estabelecida;
- pessoas com demência;
- pessoas com expectativa de vida muito limitada;
- pacientes com grande carga de medicamentos.
A decisão precisa considerar o contexto clínico individual.
Estatina protege contra demência?
O estudo não demonstrou benefício da atorvastatina sobre o desfecho composto de morte, demência ou incapacidade física persistente.
Isso é diferente de afirmar que estatinas “causam” ou “previnem” demência.
O que a pesquisa mostra é que, nesse grupo específico de participantes, o uso da atorvastatina não produziu uma diferença estatisticamente significativa nesse desfecho composto.
A relação entre colesterol, saúde vascular e saúde cerebral é complexa.
Hipertensão, diabetes, tabagismo, obesidade e outros fatores cardiovasculares podem aumentar o risco de alterações cerebrovasculares e demência.
Por isso, cuidar da saúde cardiovascular continua sendo parte importante da prevenção de declínio cognitivo.
Quais foram os efeitos adversos?
Eventos adversos graves ocorreram em proporções semelhantes entre os grupos:
- 2,7% no grupo da atorvastatina;
- 2,7% no grupo placebo.
Entretanto, eventos relacionados a alterações musculoesqueléticas, hepatobiliares e diabetes foram mais frequentes no grupo que recebeu atorvastatina.
Isso reforça um princípio importante da medicina geriátrica: benefício e risco precisam ser avaliados simultaneamente.
Em pessoas mais velhas, sintomas musculares, alterações metabólicas e interações medicamentosas podem ter impacto maior sobre a funcionalidade.
Como decidir se uma estatina é indicada?
A decisão deve ser individualizada.
O médico pode avaliar:
Risco cardiovascular
É necessário entender a probabilidade de eventos cardiovasculares e a presença de fatores de risco.
Histórico médico
Uma pessoa que já teve infarto ou AVC, por exemplo, está em uma situação diferente de alguém que nunca apresentou doença cardiovascular.
Fragilidade e funcionalidade
A idade cronológica não conta toda a história.
Dois pacientes com a mesma idade podem apresentar níveis muito diferentes de força, autonomia e reserva fisiológica.
Polifarmácia
Quanto maior o número de medicamentos utilizados, maior a necessidade de revisar possíveis interações e efeitos adversos.
Preferências do paciente
Prevenção cardiovascular envolve decisões que podem produzir benefícios ao longo de anos.
Por isso, é importante discutir expectativas, benefícios possíveis, riscos e objetivos pessoais.
O que o estudo muda na prática?
O estudo STAREE acrescenta uma evidência importante à discussão sobre prevenção cardiovascular primária em pessoas mais velhas.
Ele mostra que a idade acima de 70 anos não deve ser interpretada isoladamente como motivo para excluir uma pessoa da possibilidade de tratamento.
Ao mesmo tempo, também mostra que não devemos prometer que uma estatina fará alguém viver mais tempo livre de demência ou incapacidade.
A pergunta mais adequada é:
Qual é o benefício provável para esta pessoa, considerando seu risco cardiovascular, sua saúde global, seus objetivos e os possíveis efeitos adversos?
Perguntas frequentes sobre estatinas em idosos
- Pessoas acima de 70 anos podem tomar estatinas?
Sim. A idade, isoladamente, não impede o uso. A indicação depende da avaliação individual do risco e dos benefícios esperados.
- Estatina reduz o risco de infarto?
O estudo STAREE demonstrou redução de eventos cardiovasculares importantes em adultos com 70 anos ou mais sem doença cardiovascular, diabetes ou demência.
- Estatina previne Alzheimer?
Não é correto afirmar que estatinas sejam medicamentos para prevenir ou tratar a doença de Alzheimer. O novo estudo também não demonstrou aumento da sobrevida livre de demência.
- Estatina pode causar dor muscular?
Alterações musculoesqueléticas podem ocorrer e devem ser avaliadas pelo médico, principalmente quando há sintomas novos após o início ou mudança da medicação.
- Uma pessoa idosa deve parar de tomar estatina?
Não se deve interromper ou modificar um medicamento por conta própria. A necessidade de manter, ajustar ou suspender o tratamento deve ser discutida com o médico.
- O colesterol alto aumenta o risco de demência?
Fatores cardiovasculares, incluindo níveis elevados de LDL, fazem parte dos fatores potencialmente modificáveis associados ao risco de demência. Isso não significa, porém, que controlar o colesterol com uma estatina seja garantia de prevenção de Alzheimer.
Conclusão
O novo estudo sobre atorvastatina em pessoas com 70 anos ou mais traz uma mensagem importante: prevenção cardiovascular continua sendo relevante no envelhecimento, mas seus benefícios precisam ser interpretados dentro do contexto de cada pessoa.
A pesquisa mostrou redução de eventos cardiovasculares, mas não demonstrou prolongamento da sobrevida livre de demência ou incapacidade física.
Na geriatria, portanto, a decisão não deve ser baseada apenas na idade ou em um exame isolado de colesterol.
👉 Agende uma avaliação com o geriatra Dr. Felipe Bozi e receba um acompanhamento individualizado.

